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jacqueline aronis . artista plástica | visual artist . são paulo brasil

textos críticos: Horacio Costa

HORACIO COSTA

 

Da surpresa : Jacqueline Aronis

 

A técnica de gravura em metal é, possivelmente, avessa ao efeito-surpresa. Resultado de uma cuidadosa incisão, de um gesto necessariamente controlado, pressupõe um tempo específico, que a diferencia no contexto da cultura atual, cada vez mais afeta a uma proliferação imagética indiscriminada, avassaladora. O tempo da gravura em metal parece insurgir-se contra tal fenômeno, e contra a sua aceitação como regra, no que, diga-se de passagem, a posiciona num lugar de resistência cultural, lugar esse não dessemelhante ao da poesia no âmbito da palavra impressa, também atualmente submetido ao mesmo crescendo banalizador.

 

A imagem produzida por este tempo nessa técnica, hoje, vem imantada por uma sensibilidade visual outra, que aponta tanto à desaceleração da fruição quanto reitera a unicidade do objeto assim produzido.

 

Jacqueline Aronis considera tais noções quando nos propõe, na presente mostra, o diálogo entre duas famílias de imagens de forte peso individual, e de ressonância por assim dizer arquetípica: o coração e o cosmos. Detenhamo-nos um pouco aqui. A bem dizer, uma e outra representam extremos: a máxima interioridade e a exterioridade máxima, o centro do humano demasiado humano e o sideral berço de sua dissolução, o recôndito e o inalcançável supinos.

 

Focos de absolutos, de alguma maneira são irrepresentáveis em suas respectivas totalidades, não devido a alguma interdição, como no caso do nome do Criador para algumas religiões, mas apenas pela instância da sua magnitude simbólica - real - e da sua infinita capacidade de fazer ecoar na mente a condição da sua própria fragilidade, assim como o regalo da aventura vital.

 

Pois bem, Aronis joga com tal dificuldade, estabelecendo nexos entre essas imagens paradigmáticas. Sem trilhar um nível narrativo anedótico, antes disso, trabalha naquele espaço poético próprio da modernidade, cifrado há tantos anos por Baudelaire, de levantamento das "correspondências" entre signos dissímeis, e que inseminou a tradição de tão bons frutos discursivos e semânticos.

 

Isso permite-lhe gerar um vocabulário visual da ordem do surpreendente. Sua operação - sua aproximação - parece revestir-se de um motto circular, bimembre e baseado numa dupla equivalência: constelar o coração, cordializar o cosmos.

 

Sem o recurso incidentalmente redutor da deriva mística, o que presenciamos são, por assim dizer, os portulanos de uma "viagem astral", tanto mais interessantes quanto menos a obviam. E isso, por qual razão? Há algo de eloqüente nestas gravuras que não dissecam, e sequer, lato senso, analisam. Tão somente, e programaticamente, vêem. Para lá do sonho e da vigília, são estranhamente reais. Aqui, vale recordar que o verbo "constelar" assume um viés diferencial, se tomado pelo prisma da teoria junguiana, que o torna índice do crescimento psíquico.

 

Portulanos, claves de navegação, imagens resgatadas em sua sabidamente irrepresentável categorização. Aí as temos, (ir) resgatadas e, inda assim, íntegras em sua relação (in) conciliável.

 

Eloqüentes devido ao mínimo maximizador da linguagem da gravura em metal, certo, mas antes de mais nada surpresivas, como imagens-nexos.

Pulsares, pulsações, palavras.

Emissões, falares.

Coração-galáxia?

E dentro da caixa toráxica, galáxia-coração?

Surpresas.

 

(texto de apresentação do catálogo da exposição Gravuras, Galeria Gravura Brasileira,2001)

 

 

 

On surprise : Jacqueline Aronis

 

Conceivably, the technique of the intaglio is quite adverse to the surprise effect. The result of careful incisions, of a needfully controlled gesture, the intaglio presupposes a specific moment which distinguishes it in the context of the current culture, increasingly fond of an indiscriminate and overwhelming proliferation of images. The timing of the etching seems to rebel against such phenomenon, against its general acceptance - thus, it confers to the intaglio a role in cultural resistance not unlike that of poetry in the world of the written arts, which are also subjected to the same crescendo of triviality.

 

Today, the imagery resulting from the temporal duration of this technique is charged with a unique visual sensibility, one that points both to a deceleration in fruition and to a reassertion on the singularity of the resulting object.

 

Jacqueline Aronis considers such notions when she proposes, in her current show, a dialogue between two families of images with powerful individual weights and of - shall we call it - archetypical resonance: the heart and the cosmos. Let us tarry here a while longer. Strictly speaking, they both represent extremes: maximum inwardness and maximum outwardness, the core of the all too human humanity and the starry cradle of its dissolution, the invisible and the unobtainable in their highest degree.

 

Foci of absolutes, somehow inapprehensible in their totalities, not because of taboo, like the name of the Demiurge in some religions, but only on account of their - actual - symbolic magnitude, and because they're infinitely capable of creating in the minds an echo of their own fragility and, also, of the joy of the adventure of living.

 

Well, Aronis plays with this fire, establishing nexuses between such paradigmatic imagery. She doesn't follow an anecdotal narrative path, acting instead in that poetical space, coded so long ago by Baudelaire and most fitting to modernity - the survey of "correspondences" between dissimilar signs -, that engendered a tradition with such fine semantic and discursive fruits.

 

This allows for the birth of a visual vocabulary of a most surprising quality. Its logic - its approximation - seems to be enclosed in a circular motto, comprised of two parts and based in a double equivalence: constellate the heart, enhearten the cosmos.

 

Without employing the incidentally reductionist asset of a mystical drifting, what we see are the - so to speak - portolan charts of an "astral voyage", made even more interesting as it remains completely understated. And for which reason? There's something eloquent in those prints, in that they do not dissect and not even, in a broader sense, analyze. They just see and, even so, only programmatically. Beyond dreaming and wakefulness, they are eerily real. It's important to bear in mind that, here, "constellate" assumes the Jungian perspective of psychic accretion.

 

Portolan charts, navigational aids, rescued images in an admittedly inexpressible attempt at classification. There we have them, (un)earthed and, even then, intact in their (ir)reconcilability.

 

They are eloquent, yes, due to the minimal maximizer inherent to the language of the etching, but they are also, first and foremost, surprising as nexus-images.

Pulsars, pulsations, passwords.

Emissions, expressions.

Heart-galaxy?

And, within the thoracic cavity, galaxy-heart?

Surprises.

 

(Horacio Costa, introduction to the Etchings exhibit catalogue, Galeria Gravura Brasileira, 2001)